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Faro de Vigo

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María do Carmo Henríquez

Vivências na poesia de Guerra da Cal (Quiroga)

Temos falado em vários artigos publicados neste jornal da vida e da obra de Ernesto Guerra da Cal (Ferrol, 19 de dezembro de 1911-Lisboa, 28 de julho de 1994) e do excelente livro de Joel Gómez (“Ernesto Guerra da Cal do exílio a galego universal”, Através editora, 2025). Na soleira dos oitenta, continuava a nutrir sempre o seu saudoso amor pola Terra, que levava no seu peito sacramente e a sonhar com o seu irrenunciável ideal da grande “Portugaliza”.

Neste novo contributo nucleamos as nossas ideias sobre Quiroga (Lugo), omitimos referências à cidade de Vigo e à sua amizade com Cunqueiro Francisco Fernández del Riego, a quem vai ser dedicado o ano 2023 o mal denominado “Dia das Letras Galegas”, que exige umha urgente reformulaçom ou supressom tal como está concebido, pois que “os tempos som chegados”.

Umha das escassas homenagens recebidas por Guerra da Cal em vida tivo lugar o dia 23 de abril de 1994 em Quiroga (vila onde transcorre parte da sua infáncia), poucos meses antes do seu falecimento: “Na noite de lua cheia/ em que me visite a Morte /irei para Compostela /Ultreya./ Sobre o mar e sobre a terra /por um vieiro astral de leite/ arribarei na outra ourela /Et sus eja. / E a sombra da minha alma / vagará pela cidade / peregrina aluarada / Ultreya!”.

Participámos, além da autora deste texto, as professoras Célia Núñez e Luisa Gonçález Macia; estudantes recitárom poemas sobre a sua infáncia nesta vila. Solicitámos que umha praça levasse o nome deste filho ilustre, o silêncio...

"Umha das escassas homenagens recebidas por Guerra da Cal em vida tivo lugar o dia 23 de abril de 1994 em Quiroga"

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Converteu o rio Sil em representante principal da paisagem quiroguesa, evocada nostalgicamente desde a distáncia: “Ai, meu Sil / meu amigo rio/ que tinhas os olhos verdes/ e donairoso o feitio”. Outras vezes, compartilha o protagonismo com o Lor, refletindo a formosura primaveral das suas águas multicolores: “Do Lor ao Sil/ que verdor/ de orvalho/ no mês de Abril!”. A lembrança dos anos quirogueses vai sempre unida aos anos da meninhice, o poeta conserva gravados na memória os mínimos detalhes, lembra cenas ou detalhes quotidianos daqueles tempos, como o dia da primeira comunhom: “Marinheiro eucarístico/ numha manhá de vila nevoenta”. Também o rezo do rosário, a avó tecendo devagarinho, o gato que dormitava no sofá, a figueira em que o neno sonhava viagens que o levavam a desconhecidos e afastados países.

O poeta confessa a impossibilidade de recuperar o passado e renuncia expressamente à ideia do regresso: “Nunca voltes do exílio/ em procura de aromas/ do remoto jardim dos tempos idos/ o teu retorno os tornará perdidos/ e/ já mais nunca os poderás lembrar”. Se algo carateriza a vida e a obra deste galego é o seu compromisso com a língua da Galiza e a ferrenha defesa da sua reintegraçom no tronco lingüístico a que pertence por história e tradiçom. A língua galega já é internacional, nom é necessário que a tome assim o “Conselho da Cultura Galega”, e só tem que aplicar os postulados dos ”Grandes da Galiza”.

*Professora catedrática de Universidade

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