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Faro de Vigo

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María do Carmo Henríquez

A palavra, a falácia e a mendácia

É um feito notório que na história da humanidade a “palavra” ('lógos', 'verbum') está associada aos seres dotados de razom: Na Bíblia acompanha sempre o homem como dom originário de intercomunicaçom, é o elemento básico da expressom da Lei e da Justiça e incorpora o sentido de palavra e feito, porque a realidade nom chegava a ser plena, enquanto nom se expressasse com umha palavra. Duas palavras som falácia (simula a veracidade) e mendácia (afirmaçom contrária à verdade).

Umha das características das línguas utilizadas, em geral, pola classe política é o uso das unidades léxicais abstratas, quer dizer, palavras com um significado ou sentidos cujo referente nom pode captar-se polos sentidos. Som entidades difíceis de quantificar e de concretizar (“povo”, “gente”, “cidadania”, no mesmo nível de abstraçom que “maldade”, “falsidade”, “veracidade”). Os seus constituintes som diferentes dos substantivos concretos, isto é, as pessoas reais ou verdadeiras, que podemos ver e com as quais podemos falar, vam votar, e mesmo podem ser identificadas com um “Documento”.

A perversom no uso da linguagem é bem manifesta e está a ser denunciada nos meios de comunicaçom por jornalistas que analisam criticamente feitos ou condutas. A utopia “o povo é quem mais ordena” fica reduzida a um ideal. A prática dolosa de inventar novos enunciados acarreta mendácias como afirmar que “as normas do galego oficialista reproduzem a língua que fala o povo” ou que “nas Câmaras legislativas está representado o povo”. E ainda poderíamos acrescentar neologismos eufemísticos tais como “externalizar”, “multinível”, “reconversom industrial”, etc.

Assim, nom deixa de ser umha falácia ou mendácia que “as normas ortográficas e morfolóxicas” (1982) da Galiza reproduzam a língua do povo, pois o modelo é um híbrido vulgar, inapropriado e incompleto para a vida social incluídos os registos culto e científico. Na verdade, nom a reproduzem, porque fôrom elaboradas por umha elite, dependente do establishment, que selecionou os elementos em funçom dos interesses de um determinado projeto político, sem o necessário e imprescindível debate democrático.

Outra falácia ou mendácia é que nas Câmaras legislativas esteja representado o povo; nelas nom estám os abstencionistas, os votos em branco, os votos nulos, os partidos que nom alcançárom a percentagem estabelecida, e, por se fosse pouco, os partidos nom costumam cumprir os programas eleitorais e fazem pactos que prometérom com contundência que nom iam realizar.

O povo ordenaria controlar o preço das energias, evitar a alta de preços dos alimentos, simplificar a excessiva burocracia, reduzir as contribuiçons monetárias ao Estado das pessoas singulares, promover que os textos legais e administrativos sejam “claros, concisos, precisos, singelos e as suas palavras interpretadas segundo o seu significado na língua comum”, e que as normas jurídicas e administrativas nom sejam reformadas freqüentemente para proteger a “segurança jurídica”.

O povo ordenaria também que as administraçons públicas fossem eficientes e eficazes e que os Governos solucionassem com celeridade os problemas básicos dos cidadaos, e aconselharia nom desperdiçar tempo com bagatelas.

* Professora Catedrática de Universidade

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